Blog

18/12/2020

O futuro chega em velocidade exponencial

“As organizações que compreenderem que o mundo será a cada dia mais complexo entenderão que tipo de equipes e líderes precisarão ter a sua volta para enfrentar os novos futuros híbridos, que transformam em dados os mundos físicos, biológicos e digitais”.

O ensinamento é da publicitária, trusted advisor e palestrante futurista Beia Carvalho, presidente do Think Tank Five Years From Now®, que inspira plateias a visualizarem negócios, empresas e suas vidas no futuro. Premiada com quatro Leões em Cannes, Beia faz parte do Programa Mundial de Influencer Marketing da SAP e do coletivo London Futurists, e será uma das palestrantes do Encontro Sul- Americano de Recursos Humanos (Esarh) que a ARH Serrana realiza em novembro de 2021. Beia conquistou, em 2010, o Prêmio Excelência Mulher e, em 2019, a Personalidade RH. Na entrevista a seguir, concedida exclusivamente para a Revista Digital ARH, ela fala dos desafios para enfrentar a velocidade exponencial do futuro e para mudar os paradigmas do século passado, tanto para pessoas como organizações.

Revista Digital ARH: É INEVITÁVEL NÃO FALAR DA PANDEMIA DE CORONAVÍRUS E COMO ELA MUDOU O MODUS OPERANDI DAS PESSOAS, EMPRESAS E ORGANIZAÇÕES. PARA VOCÊ, QUAIS FORAM AS MUDANÇAS MAIS SIGNIFICATIVAS DESTE 2020 PARA A ÁREA DE RECURSOS HUMANOS E GESTÃO DE PESSOAS?

Beia Carvalho: As mudanças mais signif icativas no modus operandi das pessoas e empresas como resposta à pandemia do Covid-19 são as mudanças que deveríamos ter iniciado entre 20 e 10 anos atrás. Ou seja, mudamos para o presente. E para não nos sentirmos ridículos, cunhamos a frase “o futuro chegou”. Só assim assumimos que as coisas que já existiam no presente teriam que ser urgentemente incorporadas ao nosso hoje. Não é ironia, nem brincadeira, mas parece, não é?

Revista Digital ARH: VOCÊ ACREDITA QUE A PANDEMIA JÁ NOS ENSINOU A ENFRENTAR OS DESAFIOS OU TEMOS MUITO AINDA A APRENDER? O QUE NOS FALTA APRENDER DENTRO DE UM FUTURO PRÓXIMO, DAQUI A CINCO ANOS, POR EXEMPLO?

Beia: A transformação digital estava quicando na cara das empresas desde o início do século, o home off ice, no mínimo, há cinco anos. O exemplo do home off ice explica bem o porque que as empresas têm tanta resistência em adotar as medidas do nosso século. É muito dif ícil para um profissional do século 20 permitir que sua equipe trabalhe home off ice, longe de seus olhos, de seu controle, de seu poder. Verdade. Para um profissional do século 21, que compreendeu como funcionam os novos times diversos e em colaboração, a ideia do home off ice não é assustadora. Pelo contrário, é ef iciente, pode trazer mais produtividade e até mais felicidade para os membros da equipe. Basicamente, quero dizer que, em geral, queremos todos os benefícios do século 21, mas não queremos mudar a nossa cabeça, o tal mindset. Não queremos aprender os novos conceitos do século em que vivemos, em que criamos os nossos filhos! Não desapegamos de ideias que já não funcionam, algumas há décadas. Não acolhemos as gerações mais jovens. Pare e pense. Temos problemas em trocar ideias com os jovens que herdarão esse mundo! Olha que desperdício!

Revista Digital ARH: A CRISE MUDOU O NOSSO FUTURO OU ISSO É UMA ILUSÃO?

Beia: Para quem já observou, a mídia se refere ao Covid-19 como o “novo coronavírus”. Esse vírus é o novo, mas não é o último. Quais são as implicações desse insight? Todos nós aprendemos muita coisa nesse ano pandêmico de 2020. Quem introjetou o insight acredita que ainda tem muito mais a aprender e que nunca mais poderá abrir mão de aprender. Portanto, quem entende essa guinada do mundo percebe a bobagem que é essa f rase que diz que o futuro chegou. E crê num novo futuro complexo, que exigirá de nós cada vez mais energia e a colaboração entre os diversos. Para mim, futurar é olhar para o futuro e imaginar o porvir com bons olhos. Lutar por um futuro abundante, para fazer as coisas acontecerem bem, é investir no desenvolvimento tecnológico, pensando nos seres humanos do planeta, em primeiro lugar. Quando pensamos em alguns poucos eleitos, caminhamos para um futuro cada vez mais precário, um futuro distópico.

Revista Digital ARH: MUITAS PESSOAS FALAM QUE A CRISE GERADA PELA PANDEMIA NOS FORÇOU A NÃO CRIAR MAIS EXPECTATIVAS, E SIM PERSPECTIVAS. COMO VOCÊ AVALIA ESSE CONCEITO?

Beia: Há muitas formas de pensar perspectivas e expectativas. Não penso como coisas antagônicas, mas complementares. Podemos pensar as perspectivas como painéis, cenários futuros. Montamos estas cenas imaginando pelo menos três ocorrências: as tendências de hoje que sucumbirão, aquelas que se recombinarão e as novas que surgirão. Por exemplo, pensar perspectivas para daqui a cinco anos é considerar uma tendência que não estava presente nos painéis desenhados antes da pandemia, a tendência da higienização. É entender também como a tendência do home in (valorização do lar) se acelerou e se recombinou com a higienização, com o home off ice, com o home schooling. E por aí, vai. A partir da montagem destes vários panoramas imaginados, podemos testar quais deles trazem maior probabilidade, ou em quais podemos apostar e atuar com mais força. E, assim, nascem as expectativas diante deste ou daquele futuro.

Revista Digital ARH: NO FIM DAS CONTAS, COM TANTOS ACONTECIMENTOS, AINDA É POSSÍVEL PREVER O FUTURO OU ISSO SE TORNA CADA VEZ MAIS ARRISCADO?

Beia: Prefiro usar a metáfora de montar cenários, imaginar futuro, futurar, ao invés de “prever o futuro”. Futurar é imaginar um tempo futuro (cinco, 10 anos à frente) e vislumbrar o mundo desejado nesse futuro, levando-se em conta a velocidade exponencial das mudanças no século 21. E é aí que mora o perigo. Nós não conseguimos imaginar mudanças em velocidade exponencial. Por isso, somos e seremos cada dia mais surpreendidos pelo futuro. Podemos começar compreendendo que há uma ruptura entre o século 20 e 21, que deixaram as mudanças lineares e vagarosas no passado. Quando pensamos as mudanças com a cabeça do século 20, mudamos, mas não saímos do lugar. Um bom exemplo é o nosso pífio combate às fake news. Muita gente define fake news como fofoca/boato digital. É o jeito linear, século 20, de encarar um problema complexo transdimensional e que pode nos levar facilmente à distopia. Estamos perdendo a batalha das fake News por nossa inabilidade de compreender a função exponencial.

Revista Digital ARH: EM TERMOS DE APRENDIZADO NOS PRÓXIMOS ANOS, QUAIS SERÃO OS MAIORES DESAFIOS: APRENDER A LIDAR E DESENVOLVER A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU COM A INTELIGÊNCIA EMOCIONAL? OU COMO ELAS PODEM ANDAR JUNTAS PARA TORNAR O MERCADO DE TRABALHO MAIS JUSTO?

Beia: O pior lugar mental para pessoas e empresas é jogar a toalha. “Ah, depois do Covid-19 não dá pra prever nada, para que planejar?”. Essa predisposição à imobilização leva a inseguranças mentais para os indivíduos e a uma espiral de decadência para as empresas. Para indivíduos e empresas não negacionistas, a Covid-19 nos trouxe o exemplo nu e cru da velocidade exponencial, do alcance da atuação global e da complexidade do século 21. As organizações que compreenderem que o mundo será a cada dia mais complexo entenderão que tipo de equipes e líderes têm que ter a sua volta, para enfrentar os novos futuros híbridos, que transformam em dados os mundos físicos, biológicos e digitais. O que esperar dos futuros? Muito trabalho, muito estudo e colaboração! Temos que prover estudo, formar equipes colaborativas e compreender como damos as mãos para a tecnologia, para criar um mundo abundante para todos os seres humanos deste planeta.

Compartilhe: