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03/01/2019

ENTREVISTA: Márcio Fernandes

“É preciso equilibrar o afetivo com o efetivo”

Márcio Fernandes, um dos líderes mais admirados do Brasil, falou com exclusividade a ARH em Revista sobre Salário Emocional e Filosofia de Gestão

Márcio Fernandes foi considerado pela revista Você S/A o líder mais admirado do Brasil em 2014, obtendo a maior pontuação da história da pesquisa, com 98,3% de satisfação e engajamento de seu time. Por sete vezes consecutivas conquistou o reconhecimento de Melhor Empresa para Trabalhar do Brasil entre grandes grupos. Em 2016, foi nomeado Executivo de Valor em seu setor pelo Jornal Valor Econômico. Em 2017, foi considerado, pela segunda vez, o líder mais admirado do Brasil pela revista Você S/A. Por três anos consecutivos, sua empresa foi eleita a melhor empresa para trabalhar da América Latina também pela GPTW.

Nomeado aos 36 anos presidente de uma das maiores distribuidoras de energia elétrica do país, criou uma nova Filosofia de Gestão que desafia o modelo tradicional e propõe ao mundo corporativo uma nova possibilidade: Felicidade dá Lucro, que também é o nome de seu primeiro livro lançado em 2015. Em novembro de 2017, lançou o seu segundo livro O fim do Círculo Vicioso. Na entrevista a seguir, exclusiva para a ARH em Revista, Fernandes fala mais detalhes sobre o Salário Emocional, tema da matéria principal dessa edição.

ARH em Revista: Na sua opinião, no que consiste, exatamente, o Salário Emocional?

Márcio Fernandes: Durante anos da minha vida, um gestor que tive tentou se valer deste termo para não aumentar meu salário e dizia que o simples fato de ser meu amigo era o suficiente. Ele chama esse expediente de Salário Emocional. Sabemos que o Salário Emocional não pode ser confundido com desculpas esfarrapadas para não remunerar adequadamente alguém, e muito menos uma forma de precificar algo que não tem preço, como a amizade. Enfim, para mim o Salário Emocional é constituído por um conjunto de fatores emocionais e podem me entusiasmar, fazer com que eu me motive, e dedique meu máximo potencial. No caso da Filosofia de Gestão, temos várias práticas relacionadas a isso e que podem ser traduzidas como Salário Emocional, apesar de não ser a nomenclatura que costumo utilizar, talvez por um pouco de mágoa deste meu ex-chefe. No entanto, uma das práticas do Salário Emocional, por exemplo, é o plano de carreira e de sucessão de forma estruturada, para que os colaboradores percebam que possuem oportunidades de se desenvolver, crescer e sejam protagonistas de sua carreira. A nossa felicidade mais íntima está, de fato, no movimento, na abertura de perspectivas, na evolução, isto é, na melhoria contínua. O Salário Emocional reflete em nós os benefícios que criamos ao todo, é quase que o prazer que sentimos por nossas atitudes positivas.

ARH em Revista: Em que momento surge o Salário Emocional? É possível definir alguma época, alguma situação que tenha dado início a ele?

Márcio Fernandes: A importância de viver um propósito e de se reconectar com valores teve grande influência nesse processo de mudança. Antes valorizava-se muito o TER (ter uma casa, ter coisas), mas agora o mais importante é SER (ser uma pessoa com propósito, que impacte a vida de outras pessoas). Assim o emocional cresceu e apareceu.

ARH em Revista: O Salário Emocional tem se tornado uma tendência? Como e por quê?

Márcio Fernandes: Se tornou cada vez mais importante fazer com que as pessoas se sintam parte do negócio para que elas se engajem. O comprometimento é realizar aquilo que está na sua responsabilidade, já o engajamento é fazer além. Então, conectar pessoas e empresas pode gerar vínculos benéficos para o todo, a sociedade, as famílias e para o empreendimento. Assim, nada mais adequado que ter também uma remuneração emocional para aquilo que se faz apenas pelo prazer de ajudar os outros. O Salário Emocional cresce à medida que nossa consciência aumenta em relação aos outros.

ARH em Revista: O Salário Emocional está mais para atrair ou para reter profissionais? Por quê?

Márcio Fernandes: Na Filosofia de Gestão, não acreditamos na retenção de pessoas. Queremos ter estímulos positivos para que as pessoas nos escolham porque querem. Buscamos incentivar pessoas a encontrar um propósito em seu trabalho e na vida, e os inspiramos para mantê-lo sempre engajados. Oferecemos condições para que todos planejem sua carreira e, o mais importante: estimulamos cada um a sonhar e a realizar, isso atrai pessoas. O que chamamos de Salário Emocional ou prazer por exercer seu trabalho é simplesmente uma das conseqüências positivas de suas atitudes e justificativa para sua escolha e sim, esta convergência nos torna mais atraentes.

ARH em Revista: E o funcionário, de um modo geral, tem percebido e valorizado isso?

Márcio Fernandes: Os colaboradores percebem, sim! Conheço vários exemplos de colaboradores que apostaram no que querem, aproveitam as oportunidades e ferramentas que a empresa oferece e colhem os frutos da sua dedicação. Não é raro encontrar histórias inspiradoras de pessoas que protagonizaram suas carreiras. A valorização da meritocracia, os programas de desenvolvimento e outras ferramentas que auxiliam no crescimento e a existência de uma liderança engajada no desenvolvimento das pessoas criam o ambiente perfeito para realizar sonhos. Basta acreditar, se dedicar e aproveitar as oportunidades. As pessoas não apenas valorizam, mas também buscam por isso.  Outro ponto importante é que as empresas tenham espaço para a comunicação. Se ela for quente, fluente, frequente e transparente, com certeza o colaborador perceberá que faz parte do time, que possui voz ativa e participa das tomadas de decisão da empresa. Isso é uma expressão emocional que vale muito.

ARH em Revista: O Salário Emocional tem alguma desvantagem?

Márcio Fernandes: Tem muito mais vantagens, em especial quando se tem uma preocupação genuína com as pessoas e estamos permanentemente atentos às suas necessidades, tanto no aspecto profissional quanto no pessoal, estimulando o desenvolvimento e a participação. Quando se investe em ações com foco na felicidade, envolvendo suas famílias em momentos especiais, é natural que as vantagens sejam maiores. Mas é claro que existem as deturpações do Salário Emocional, e isso é uma grande desvantagem de pessoas que usam ou tentam usar a terminologia para justificar outros erros em suas práticas mais básicas e denigrem a forma. Vale ressaltar que uma gestão bem sucedida não é feita por gestores paternalistas, em que o líder precisa ser bonzinho e ótimo pagador de Salário Emocional. Ele precisa é ser justo! Com critérios bem definidos, claros e abertos para todos, é possível ter uma gestão equilibrada entre o afetivo e efetivo, com a valorização das pessoas e um ambiente bem mais feliz e lucrativo.

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