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01/04/2019

Entrevista: IRMÃ LUCIA BONIATTI

“Humanização é descobrir e acreditar no potencial do próximo”

A educadora e administradora farroupilhense Irmã Lucia Boniatti cumpre um missão: ajudar as pessoas. Essa missão, porém, ganha uma dimensão enorme quando se está à frente de um dos mais importantes hospitais do Brasil. Aos 75 anos de idade, a presidente do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, exercita diariamente a sua vocação de ser solidária ao próximo, o que já lhe rendeu inúmeros prêmios nacionais como destaque em gestão e desenvolvimento de pessoas, entre eles o Top Ser Humano na categoria Personalidade.

“Realizo desde criança o sonho de ser educadora”, comenta a religiosa, sem esconder o orgulho por seus 53 anos de dedicação às Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo Scalabrinianas, a qual está vinculada a Associação Educadora São Carlos (AESC) - a entidade é mantenedora do Sistema de Saúde Mãe de Deus, das Escolas São Carlos e de atividades de ação social. Após a formação em Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), Irmã Lucia passou a lecionar Matemática, Física e Estatística nas escolas da AESC e em unidades da rede pública de Caxias do Sul. Foram 32 anos de sala de aula. Sua afinidade com os números foi dando lugar a novas tarefas na área da administração e ela passou a assumir cargos de secretaria, tesouraria e direção até chegar à presidência da entidade da AESC entre 1993 e 1999.

Sua dedicação a essas funções transformou-se em um novo desafio, e a partir de 2006 a educadora passou a comandar operações de saúde do Sistema de Saúde Mãe de Deus. Diante disso buscou novas especializações, como o Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Pós-Graduação em nível de Especialização: Humanidades - Para entender melhor o século XXI, pela Unisinos.

Educação, saúde, humanização e solidariedade. Irmã Lucia fez e faz dessas quatro palavras um projeto de vida e um exemplo a ser seguido. Saiba mais sobre esse exemplo de personalidade na entrevista a seguir, concedida com exclusividade a ARH em Revista. 

ARH em Revista: O seu trabalho de gestão frente ao Hospital Mãe de Deus é reconhecido por várias organizações e premiações. A que a senhora atribui tamanho reconhecimento?

Irmã Lucia: Atribuo ao serviço que prestamos à comunidade por meio da saúde, pela forma de relacionamento com os clientes e, acima de tudo, pela missão que desenvolvemos: acolher bem as pessoas que buscam o nosso hospital. O reconhecimento é uma consequência do trabalho desenvolvido no dia a dia, de forma humanizada e espiritualizada, em favor dos outros.

ARH em Revista: O que a senhora entende por gestão humanizada e o que pode nos ensinar sobre isso?

Irmã Lucia: É tratar os nossos semelhantes com respeito, educação e acolhimento, e reconhecer que todo e qualquer ser humano tem seu espaço na sociedade. Gestão humanizada é dar oportunidade às pessoas para que elas se promovam, se empoderem com o seu saber. Isto para mim é humanização. É ver no outro o seu potencial e ajudá-lo a colocar em prática. Para mim, a questão humana fala muito alto: eu preciso, como ser humano, ter respeito com todos os outros seres, independentemente da raça, da cor e do conhecimento que estas pessoas têm. Não é o conhecimento que faz o ser humano, mas é aquilo que ele desenvolve em si mesmo. O ser humano é o que ele consegue revelar para os outros.

ARH em Revista: Por que administradores e gestores devem “investir” na gestão humanizada. Quais os resultados que ela oferece?

Irmã Lucia: É uma questão ética, moral. Os gestores devem investir na humanização porque esta é uma forma na qual conseguimos adquirir a confiabilidade das pessoas e, com isso, desenvolver todas as ações relacionadas ao negócio com mais entusiasmo, com mais energia, com mais prazer. É prazeroso fazer algo para os outros. Se um gestor é humano, carinhoso, faz uma boa acolhida, seus funcionários serão felizes, e isso não tem preço.

ARH em Revista: Os desafios e responsabilidades de gerir uma instituição de saúde no Brasil são enormes. Como a senhora encara esse desafio diariamente?

Irmã Lucia: É uma missão, visto que ter saúde é a necessidade primordial do ser humano. Se a instituição existe para prestar saúde, é ali que tem que estar o foco. Eu preciso dar o meu melhor para que esta missão tenha um resultado positivo todos os dias. E essa é a minha contribuição para uma sociedade melhor: possibilitar que cada pessoa possa retornar às suas atividades com uma melhor qualidade de vida. Isso é ser responsável com a sociedade e a humanidade. Todos os dias eu levanto de manhã sem reclamar de nada e com muita vontade de saber qual a situação dos nossos pacientes. Com isso eu entendo de que maneira eu posso contribuir com a sua recuperação. No fim do dia posso até ir para casa com algumas frustações, isso é normal, mas a bagagem de experiências positivas é muito maior.

ARH em Revista: Como a senhora avalia as conquistas das mulheres no Brasil, seja no mercado de trabalho ou à frente de instituições sociais e ou governamentais? Elas estão tendo o reconhecimento devido, há uma evolução nesse sentido?

Irmã Lucia: Entendo que a mulher conquista seus espaços buscando um conhecimento que a ajude a resolver problemas sociais, como o combate à violência, à falta de alimento, à falta de cultura. A mulher tem uma sensibilidade muito grande em relação a situações que afetam o ser humano. Por isso, acredito que ela esteja conquistando mais espaços. Ela consegue se colocar no lugar do outro.

ARH em Revista: Como a senhora avalia os rumos da educação no Brasil diante das mudanças de diretrizes propostas pelo novo governo?

Irmã Lucia: Em relação ao governo, acredito ser muito recente para que me sinta à vontade de dar alguma avaliação.

ARH Serrana: Para a senhora, qual é o papel da educação e da escola no Brasil, um país que não tem bons índices relacionados à alfabetização e à evasão escolar? Como mudar esse quadro?

Irmã Lucia: É importante garantir que todos tenham condições de acesso à escola, pois o que transforma o homem, a família e a sociedade é a educação. Outro ponto essencial é a capacidade de integração entre escola e família, resultando em uma educação integrada. A educação parte da realidade em que o público está inserido, por isso não sou a favor de currículo igual para todos, onde se restrinja a adquirir conhecimento decorando conteúdos. O conhecimento não deveria ser avaliado por meio de provas e testes, mas sim por meio do que os alunos constroem através do conhecimento que lhes foi dado. Sobre a evasão escolar, entendo que ela acontece porque a aluno não é reconhecido ou conquistado pelo seu educador. Ou aquilo que estão entregando para os alunos não é interessante. Hoje temos uma educação de massa e precisamos inovar e personalizar a educação de acordo com os públicos diversos que temos.

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