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12/07/2019

Entrevista: Giovanni Ciuro: “Trabalhar com alegria. Isso é tudo!”

“Alegria em cada ação. Confiança em todas as relações. Trabalho em equipe, com segurança e capacitação. Compromisso com o cliente interno e externo e a comunidade”.

Toda grande  impresa procura deixar claro seu negócio, sua política de qualidade, sua missão e seus valores. É uma maneira de espelhar os objetivos da organização e até mesmo de aproximá-la ainda mais da comunidade onde está inserida. Os quatro valores citados acima são da Cobra correntes, empresa caxiense fundada em 1986 e que tornou-se case de sucesso ao longo de sua história. Não apenas por ter se tornado a primeira empresa nacional a suprir o mercado de movimentação intralogística com produtos e soluções estratégicas e de qualidade - antes, essa demanda dependia de empresas do exterior. A Cobra Correntes destacou-se por implantar  políticas e modelos de gestão mais abertos, mais dinâmicos, focando em seu potencial humano antes de qualquer outro grande investimento.

Confira a seguir a entrevista exclusiva concedida pelo Diretor Executivo da Cobra, Giovanni Ciuro Pacheco, um engenheiro com muito jeito de lidar com pessoas, à base da alegria.

ARH em Revista: Por que a Cobra Correntes tem se tornado um referencial como política de RH?

Giovanni: Essa pergunta me pegou de surpresa! Não tínhamos essa percepção, apesar de termos recebido muitas visitas de empresas de todos os portes para trocar experiências. Isso tem nos chamado bastante atenção, e agora, com essa entrevista... Ficamos felizes por isso! Trabalhamos práticas muito simples, com um custo financeiro muito baixo, mas todas feitas de coração. Acredito que essa é a grande chave: quando algo é genuíno, é percebido de forma  diferente pelas pessoas. É de minha natureza explorar e me divertir, sempre fui inquieto e nunca segui uma linha de conduta “convencional”. Sempre tento tornar o ambiente em que estou um ambiente descontraído. Acredito que é mais fácil viver sorrindo. Iniciei na indústria com 17 anos, e percebi o quão chato o ambiente corporativo pode ser. Sofri bastante com isso, por ver muitas vezes pessoas alegres e brincalhonas não serem levadas a sério. Sou contra rótulos e conceitos pré-estabelecidos e sempre idealizei o lugar onde queria trabalhar. Aliado a isso, tive a oportunidade de conhecer empresas de tecnologia em muitos lugares e passei a perceber que empresas com decoração colorida, música, pu–s e escorregador eram sempre as mais divertidas. Então fomos “implantando” uma forma descontraída de lidar com assuntos sérios, de olhar para as pessoas e de nos colocar no lugar do outro sempre, unidos a um forte senso de coletividade e muita transparência. Na verdade, estou apenas construindo a empresa que eu gostaria de trabalhar. Então talvez o fato de a Cobra estar sendo vista dessa forma por outras empresas pode significar que mais pessoas dividam comigo essa visão e vontade.

ARH em Revista: Em que momento a empresa percebeu que deveria ganhar um novo rumo em relação à gestão de seu potencial humano? O que o levou a isso?

Giovanni: Em 2007 tive a oportunidade de assumir a Gerência Operacional da Cobra Correntes, uma empresa então com 21 anos de história e 52 profissionais, consolidada em seu mercado com um bom resultado operacional e práticas definidos, porém com as quais eu não me  identificava. Com experiência profissional limitada à gestão na teoria, passei a testar aquilo que tinha aprendido em escolas tradicionais. Nos primeiros anos segui a cartilha da gestão tradicional, modelo testado e validado, sem muita assinatura própria. Tudo andava bem até uma certa inquietude dar sinal de vida. Percebi que estava repetindo tudo o que me  incomodava no passado. Sentia falta do ambiente descontraído e sem pressão, onde todos têm voz e autonomia, portanto sabem o que é preciso fazer. Nesse momento, a ousadia que fazia parte do meu jeito de ser me permitiu experimentar e, aos poucos, procurei, de forma mais intuitiva, criar aquele ambiente descontraído e divertido que curto. Por consequência, fui transformando a empresa naquele lugar que eu sonhava trabalhar e que preenchia o meu propósito profissional e de vida. Acho relevante mencionar que esse “movimento” nunca foi pensado visando lucro, mas sim em buscar um lugar excelente para se trabalhar, não para passar trabalho. Em 2015 tive a oportunidade de conhecer, em um congresso, Márcio Fernandes, então presidente da distribuidora de energia Elektro. Foi então que percebi que eu não estava sozinho nessa busca, que existia fundamento e teoria para o que eu estava fazendo, e que isso gerava resultados incríveis.

ARH em Revista: Como se deu o processo de implantação de uma nova cultura de RH, gestão de pessoas, valorização de talentos...?

Giovanni: Bons resultados nos motivam a seguir em frente. Ao perceber a necessidade de sustentar esta visão e colocar as pessoas no centro, fui buscar uma pessoa que tivesse vivência e, principalmente, alguém que acreditasse de forma genuína nos valores e no propósito que eu estava criando na empresa. Em 2017, nossa atual Gerente de RH, Sabrina Bossle, passou a integrar o time da Cobra. A entrada dela permitiu materializar tudo que eu tinha intenção de fazer e não sabia como, pois até então tudo era muito empírico, feito pela minha intuição e ela conseguiu trazer experiência prática, metodologias, programas que implantamos. Parceria formada, muita vontade de fazer diferente, criatividade e “cara de pau” para conseguir visitas de “benchmarking”, e o processo iniciou. A cultura foi mudando aos poucos, algumas pessoas que não se sentiram confortáveis com a nova cultura naturalmente buscaram novos desafios profissionais. Isso é natural que aconteça.

ARH em Revista: Foi adotado algum método específico de gestão? Qual?

Giovanni: Estudamos alguns métodos e optamos por aquele que de fato tinha muito a ver com o nosso propósito, pessoas, e que fazia sentido para nos dar suporte na busca de um lugar excelente para todos conviveram. Encontramos ferramentas que nos apoiaram na metodologia de Robert Levering, escritor e co-fundador da Great Place To Work (GPTW). O que nos brilhou os olhos foi o fato de a metodologia estar centrada na confiança.

ARH em Revista: Quais foram as principais ações realizadas e em que áreas foram implantadas?

Giovanni: Sempre tivemos a preocupação com o senso coletivo: ou somos todos, ou somos nenhum. Quando falamos em implementação de práticas, isso deve ser considerado. Nossa primeira ação foi a de escutar, por meio de pesquisa de clima, como todos estavam se sentindo e como enxergavam a empresa. Tivemos grande proveito com a pesquisa, mas não era o suficiente. Neste momento criamos o projeto “Café com o Diretor”, realizado fora do ambiente da empresa, em um coworking. Passávamos a manhã, literalmente, tomando um belo café e escutando cada um. Criamos um canal aberto e de confiança com os nossos então 96 colegas. Percebemos que podemos fazer muito com pouco. Surgiram necessidades simples e não percebidas, por exemplo: wi-fi aberto nos intervalos, um novo bebedouro na linha de montagem, melhor iluminação em uma máquina, um ponto de ar comprimido para facilitar a vida do operador. E elas foram rapidamente solucionadas, com baixo custo e satisfação imediata. Como já esperávamos, algumas questões curiosas surgiram, entre elas a necessidade que muitos colaboradores tinham de conhecer e ver o produto Cobra Correntes em funcionamento. Foi a mais complexa e a que mais nos orgulhamos de realizar. Em vez de oferecer o tradicional churrasco no Dia do Trabalhador servido pela gestão, optamos por fechar a operação por completo em uma segunda-feira de maio do ano passado e levamos toda a equipe para um destino desconhecido. Estávamos em um processo de mudança de endereço e todos tinham curiosidade para conhecer a nova sede da empresa, portanto esse novo local foi a primeira parada. Em seguida nos dirigimos a Bento Gonçalves, onde tivemos um tradicional almoço italiano e fechamos o dia visitando uma das maiores vinícolas da região que é grande cliente da Cobra, com direito a degustação de vinhos. Foi maravilhoso. O maior valor percebido por todos foi a transparência da empresa, a alegria com a qual todos desenvolvem seu trabalho e a liberdade que todos têm com os gestores. Disso nasceu o novo DNA Cobra: “Sorrir, sorrir muito”. Entre tantas ações simples e de baixo custo criadas, tivemos sempre o cuidado de que elas fossem sempre para a fábrica como um todo, ao exemplo do uso de bermuda. Surgiu a ideia de adotar o uso da bermuda no início desse ano, tivemos cuidado para ter certeza dos riscos que estávamos assumindo por se tratar de uma metalúrgica. Então, com segurança, quando liberamos o uso, liberamos para todos, principalmente para a produção, que mais sofre com o calor. Recentemente, ações que nos trazem imensa alegria são as comemorações pelos aniversários, farra única com direito a bolo, zoeira, aquela corneteada do bem, entre amigos! Nossa meta é “zero dias sem cornetear alguém”, a brincadeira faz parte dos nossos dias. O mais novo projeto é a Sexta do Pet, dia em que os profissionais podem levar seu animalzinho de estimação para a empresa.

ARH em Revista: As mudanças culturais alcançadas no ambiente da empresa revelaram quais vantagens ou resultados?

Giovanni: Construímos mais do que um excelente lugar para se trabalhar. No primeiro ano, percebemos um aumento na rotatividade. Eram colegas que não dividiam o novo propósito, e naturalmente foram se sentindo deslocados. Já as pessoas que acreditaram nessa cultura nos apoiaram na construção desse novo ambiente. Um canal de comunicação reto, sem hierarquia, foi naturalmente criado, no qual pequenos assuntos são resolvidos assim que surgem. O clima organizacional é alegre e o engajamento é alto, mas são apenas dois anos focados nessa nova cultura, ainda temos potencial para evoluir muito. Hoje temos um índice de satisfação de trabalho na Cobra Correntes de 78%, mas estamos em busca dos 90%. Em termos de resultados operacionais, o índice de rejeitos baixou e a produtividade aumentou. O nosso mais recente NPS, que mede a satisfação dos clientes, está em 90%, a taxa de rotatividade está inferior a 1,5%e tenho convicção de que, se não fosse por essa nova cultura não teríamos atravessado tempos difíceis como os vividos nos últimos anos, com taxa de crescimento média anual de 10%.

ARH em Revista: Como um novo modelo de gestão pode transformar pequenas ou grandes empresas com ações diferenciadas?

Giovanni: Hoje, muito se fala em engajar as pessoas e são elas os agentes de transformação das empresas. A escolha por um profissional adequado para uma vaga muitas vezes é determinada quando a empresa também está adequada às necessidades desse profissional. Um bom profissional tem muitas opções. Richard Brason, fundador da ViriginGroup, disse “Capacite bem seus colaboradores para que eles possam partir. Trate-os bem para que prefiram ficar”. Um excelente profissional tem a chance de escolher onde quer trabalhar e cabe às empresas entender quais profissionais queremos atrair, e então criar um ambiente que promova isso. Um profissional engajado não troca uma empresa com cultura forte por um benefício a mais e, se trocar, é porque não estava engajado àquela cultura. O processo de mudança de cultura está longe de ser simples. Você tem que estar preparado para escutar e remover os tapetes para que nada seja varrido para baixo deles, nada mesmo. Neste momento é importante entender quem são os influenciadores positivos, e nutrí-los; mas é preciso estar atento aos negativos, pois um influenciador negativo coloca toda a mudança em risco. Recentemente, li um artigo escrito por Steven Kotler, para a Forbes, no qual ele fala um pouco sobre a receita para encontrar sua paixão. Nesse texto, ele apresenta uma fórmula simples para encontrarmos a nossa paixão. A minha paixão está na alegria, no bem-estar e nas pessoas. Sugiro que você tenha muito clara a sua. Digo isso, pois sem paixão não há cultura que se sustente, já que ela precisa partir de você, como gestor.

Boa sorte!

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