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15/12/2019

Alexandre Gewher: Os desafios da indústria 4.0

Uma maior interação entre a comunidade acadêmica e o setor industrial será um passo fundamental para que a tecnologia chegue de fato às empresas e organizações de forma equilibrada, trazendo benefícios palpáveis a toda cadeia mercadológica. A ideia é defendida por Alexandre Gewher, gerente de TI e Business Partner da empresa AGCO. Graduado em Administração, Black Belt e com MBA em Engenharia de Produção, Gewher atua há 30 anos na indústria automotiva e compartilhou um pouco do seu conhecimento durante o 11º Fórum de Gestão de Pessoas da ARH Serrana, realizado dia 11 de setembro, no UCS Teatro. Ele é responsável pelo desenvolvimento e execução das estratégias de TI voltadas para as áreas de manufatura e engenharia, com suportes locais e globais que envolvam tecnologia. Após palestrar no Fórum sobre o tema Indústria 4.0 – Desmistificando o assunto e preparando o seu negócio para esta nova onda, Gewher conversou com a Revista Digital ARH Serrana sobre o perfil das empresas mais próximas da revolução digital, o papel da educação nesse processo e a criação de novos perfis profissionais. Confira.

Revista Digital ARH: Qual é o perfil das empresas e organizações aonde a Indústria 4.0 já chegou ou chegará em breve?

Alexandre Gewher: Vou te dar um “choque” agora ao dizer que não é a indústria. Não será a indústria que receberá primeiro esse grau de automação que está se imaginando tão forte. Acho que é o setor de serviços. E aí você pergunta o que tem a ver serviço com excesso de automação? Por exemplo: no meu ponto de vista, em questão de dois ou três anos, empresas de fast food entenderão que têm muita gente para fazer atividades que os equipamentos podem fazer. Acho que aí é que vai acontecer a transformação mais rápido do que na indústria, porque o nível de investimento é muito menor em contrapartida com o gasto trabalhista que essas empresas têm hoje. A possibilidade de retorno financeiro em cima das empresas fast food trabalhando com nível de automação é muito mais alto. Quando a gente fala de indústria, é lógico, a indústria metalmecânica é o que está se buscando, mas tudo depende de qual elemento da Indústria 4.0 será determinante para definir a atuação do modelo da revolução. Se a gente entender que é manufatura aditiva, que são as impressoras 3D, com certeza todas as indústrias que trabalham hoje com projeto e engenharia, e entregam componentes processados e usinados, serão beneficiadas desse modelo.

Revista Digital ARH: Há ainda muita confusão e receio no equilíbrio modernização da indústria X dispensa de mão-de-obra. Como você entende essa questão?

Gewher: Vai acontecer essa migração. Essa é uma história que a gente ouve há muito tempo. Mas vou fazer uma pergunta/reflexão: a gente se preocupou com isso quando saímos do videocassete e fomos para a Netflix? Quantas indústrias e locadoras foram fechadas, quantos empregos foram fechados para que eu migrasse minha forma de usar a tecnologia? Entendo que esse tipo de discurso não pode ser aplicado a uma sociedade que está se desenvolvendo. A sociedade tem que achar meios de poder alocar as pessoas. A única forma de propiciar essa alocação de mão-de-obra é pensar mais na outra mão-de-obra que vai vir. Pesquisa recente feita pelo Sistema S revela que temos 8,5 milhões de pessoas trabalhando na indústria. Então não temos que treinar 8,5 milhões, mas 10,5 milhões, são 2 milhões a mais de pessoas que estarão trabalhando. Mas só há um fator determinante para garantir que a sociedade não sofra gravemente com a entrada contínua de tecnologia: educação. Educação e treinamento. É necessário promover políticas governamentais, políticas nos meios de ensino, nos meios catedráticos, que consigam jogar informação e preparar pessoas, essa é a única maneira de garantir o balanço entre tecnologia e perda de empregos. Eu não vou te dizer que empregos não serão extintos. Sim, tipos de empregos serão extintos, mas novos serão criados.

Revista Digital ARH: A escola está preparada para lidar com essa transformação, será necessário pensar em um novo modelo de educação?

Gewher: Sim, a escola tem que mudar. Quando eu era pequeno, eu tinha uma mentalidade para a tecnologia, hoje meu filho tem outra. Meu filho já nasceu com conta de e-mail e usando tela touch. Eu tive que ensinar pessoas a trabalhar com mouse... Então as escolas têm que entender esse viés e se adaptar. Mas mais do que isso, falando de um ensino mais avançado, uma mudança que precisa acontecer muito rapidamente é uma parceria entre o meio acadêmico e o meio de business, uma parceria que possa trazer mais realidade nos conceitos estabelecidos pelo meio acadêmico. Eu não consigo ver separado, esse casamento precisa acontecer entre as universidades e as empresas, para que as universidades joguem conceitos e modelos dentro da empresa e as empesas avaliem e devolva para elas. Essa união entre esses dois mundos é muito importante.

Revista Digital ARH: E isso se aplica a todos os cursos?

Gewher: Falo mais em Tecnologia, Engenharia, Sistemas de Informação, mas acho que se aplica a todos, sim. Quando vou estudar RH ou Psicologia na universidade, acho que preciso entrar um pouco mais dentro das empresas. Meu filho faz Psicologia, e eu comento com ele que essa é uma função pivô que serve para tanta coisa, e não apenas para trabalhar num consultório. Você tem psicologia hoje no marketing, no RH, na indústria, psicologia comportamental dentro da empresa, ou seja, não se pode mais olhar uma profissão ou uma área da educação como sendo somente para um fim. Quando as possibilidades que se têm hoje para as áreas que são trabalhadas numa universidade vão para os meios de negócio, ganham uma multiplicação que não conseguimos explicar.

Revista Digital ARH: Como o RH está se adaptando às mudanças de relação de trabalho, lidando com novos recursos como softwares de recrutamento, por exemplo?

Gewher: A verdade é que hoje quem está com o papel de preparar as pessoas não é mais tanto o RH, né...? Quem está preparando as pessoassão as áreas que vão recebê-las, e esse é um trabalho difícil porque essas áreas não são preparadas com o “skill” que o RH tem. Por exemplo, é arriscado um funcionário que chega para trabalhar na produção, na área de engenharia ou manufatura, ser preparado apenas por alguém dessas mesmas áreas. Ele vai olhar o cara de forma cartesiana, ele não vai olhar a emoção, ele não vai olhar toda a inteligência emocional que esse colega tem para poder receber e trabalhar da forma mais produtiva. Haverá muito mais resultados se o RH entrando junto numa atuação tipo Business Partner, junto com esses processos. A gente perde muitas pessoas por achar que elas não têm capacidade de fazer as coisas quando botamos uma tecnologia nova na frente delas. Isso é ruim para pessoa e ruim para o projeto. O projeto nasce morto porque a pessoa não está capacitada a usá-lo.

Revista Digital ARH: Somado a isso tem o fator de que muitos profissionais têm receio diante de novos projetos e tecnologias...

Gewher: O novo sempre assusta. Um trabalho que tenho feito é levar o entendimento sobre a Indústria 4.0 para que as pessoas não recebam essa informação apenas quando a Indústria 4.0 estiver batendo a sua porta. Porque não é uma área ou outra que faz a Indústria 4.0, é a indústria como um todo. Ninguém melhor para entender como eu posso aplicar a tecnologia do que a pessoa que está no posto de trabalho. Nosso trabalho é conversar e discutir com pessoas de todas as áreas, do chão de fábrica à engenharia de produto, engenharia de qualidade, finanças. Tem que ser aberto para que todos tenham o entendimento do que está por vir, do que está transformando a organização.

Revista Digital ARH: Muitas empresas estão se movimentando nesse sentido criando parcerias com startups. Qual a sua opinião sobre esse modelo?

Gewher: Eu tive uma experiência com esse modelo que não foi a mais feliz, mas não foi por isso que desisti, estou fazendo de novo. A experiência que fiz foi apresentar problemas para levar oportunidades a incubadoras. Então tratei com várias incubadoras e elas me apresentaram opções de starups. Mas pensei: vou pagar o investimento do desenvolvimento do produto dele e da empresa dele, trago ele pra dentro da minha organização e ele resolve meu problema, na velocidade e na agilidade que ele tem. Inclusive a frase que eu mais dizia é “não te contamina comigo que eu sou lento, lerdo e pesado, e eu quero tua agilidade”. O problema é que identifiquei em todos os casos falta de maturidade de negócios quando eu planejava escalar minha produção. Me apresentavam soluções pontuais, não globais. Eu não quero comprar apenas uma solução, preciso comprar o suporte dela, e quando tu vai para o suporte eles não têm estrutura. Alguns deles não sabiam como calcular preço, então eu mesmo tinha que calcular um preço para entrar com a solução dele na Alemanha, na França e no Brasil. E me diziam: não sei como calcular. Então tive que fazer todo um coaching para ensinar a parte de gestão econômica e comercial.

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