NR-1 e os Riscos Psicossociais: O Novo “Passivo Invisível” das organizações

NR-1 e os Riscos Psicossociais: O Novo “Passivo Invisível” das organizações

por Reinaldo de Francisco Fernandes

Por que a saúde mental deixou de ser apenas uma questão médica para se tornar uma obrigação legal e estratégica para o seu negócio?

Durante décadas, a segurança do trabalho no Brasil foi sinônimo de capacete, luvas e proteção contra máquinas. No entanto, a atualização da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-1) trouxe uma mudança de paradigma que muitos empresários ainda não assimilaram completamente: a obrigatoriedade de gerenciar os riscos psicossociais.

Não se trata mais de “se” a sua empresa deve cuidar da saúde mental, mas “como” ela provará que o faz. Este artigo desmistifica a nova norma, apresenta os dados alarmantes que motivaram essa mudança e explica o impacto financeiro de ignorar esse cenário.

O Cenário: Uma Epidemia Silenciosa (e Cara)

Para entender a urgência da NR-1, basta olhar para os números. O Brasil vive uma explosão de afastamentos laborais decorrentes de transtornos mentais.

Dados recentes do Ministério da Previdência Social e levantamentos da ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho) mostram um crescimento vertiginoso:

  • A Explosão dos Casos: O número de benefícios por incapacidade (antigo auxílio-doença) gerados por transtornos mentais saltou de cerca de 198 mil em 2023 para mais de 344 mil em 2024.
  • Tendência de Alta: Em 2025, os números continuaram a subir, com projeções indicando um crescimento superior a 70% em relação a dois anos antes.
  • As Principais Causas: A depressão lidera o ranking, seguida de perto por transtornos de ansiedade. O Burnout, agora classificado oficialmente como doença ocupacional, viu seus registros triplicarem no mesmo período.

O Brasil no Ranking Global: Uma “Prata” que Ninguém Quer

O cenário brasileiro é particularmente preocupante quando comparado ao resto do mundo. Segundo dados da International Stress Management Association (ISMA-BR), o Brasil ocupa o 2º lugar no ranking mundial de casos de Burnout, ficando atrás apenas do Japão.

Além disso, somos frequentemente citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o país com a maior prevalência de ansiedade do mundo. Para o empresário, isso significa que a fora de trabalho humana disponível no mercado já chega às empresas em estado de alerta.

 

Quanto Isso Custa ao Brasil (e à Sua Empresa)?

A fatura dessa crise não é paga apenas pelo INSS. O impacto na economia real é devastador.

  • Custo Previdenciário: O custo apenas com o pagamento de benefícios por transtornos mentais saltou de R$ 477 milhões em 2023 para quase R$ 1 bilhão em 2025.
  • Impacto no PIB: Um estudo recente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) estima que os problemas de saúde mental custam ao Brasil cerca de 2,8% do PIB — algo em torno de R$ 282 bilhões por ano.
  • Prejuízo Oculto: Para a empresa, o custo vai além dos impostos. Inclui o presenteísmo (o colaborador está lá, mas não produz), o turnover (custo de dispensar e treinar novos) e o risco jurídico.

NR-1: As Dúvidas do Empresário

Diante desse quadro, a NR-1 foi atualizada para exigir que o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) inclua os riscos psicossociais. Abaixo, respondemos às principais dúvidas dos gestores:

  1. “Isso é realmente obrigatório ou é apenas uma recomendação?”

É obrigatório. A nova redação da NR-1 exige que a empresa identifique fatores que possam causar estresse, ansiedade ou esgotamento. Se um Auditor Fiscal do trabalho bater à sua porta, ele poderá pedir evidências de que sua empresa mapeia e tenta mitigar esses riscos, assim como pede o laudo de ruído ou calor.

  1. “Como vou controlar a cabeça do meu colaborador? Isso é subjetivo.”

A norma não exige que a empresa seja “terapeuta” do colaborador, mas que cuide do ambiente. Fatores objetivos que geram risco psicossocial incluem:

  • Metas inalcançáveis;
  • Jornadas excessivas sem descanso;
  • Assédio moral ou liderança abusiva;
  • Falta de clareza nas funções. Controlar isso é gestão, não psicologia.

 

  1. “O Burnout agora é responsabilidade minha?”

Pode ser que “sim”. Desde a atualização da CID-11 pela OMS e a validação pelo Ministério da Saúde, o Burnout é uma doença ocupacional. Isso significa que, se comprovado o nexo causal (que o trabalho causou a doença), o colaborador tem direito à estabilidade de 12 meses após o retorno e a empresa pode ser acionada judicialmente por danos morais e materiais e a demonstração dos cuidados com o ambiente podem reduzir ou até mesmo eliminar o risco.

 

quanto o bornout custa ao empresário

 

O Caminho: Da Preocupação à Prevenção

A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 não deve ser vista apenas como burocracia, mas como uma ferramenta de defesa para o empresário.

Uma empresa que possui um PGR robusto, que realiza pesquisas de clima, canais de denúncia de assédio e treinamentos de liderança, está produzindo provas a seu favor. Ela demonstra que, se o adoecimento ocorreu, não foi por negligência corporativa.

Em um país que ocupa a vice-liderança mundial em esgotamento profissional e perde bilhões com afastamentos, investir na saúde mental deixou de ser “coisa de empresa moderna” para se tornar uma questão básica de sobrevivência financeira e jurídica.

A busca por trabalhos menos estressantes já está entre as principais pretensões dos candidatos a vagas em nossas empresas. Perguntas como: “a vaga é pra teletrabalho” já têm incomodado organizações que sofrem na busca por melhores profissionais. Salários e benefícios competem com ambiente saudável e equilibrado.

Parte dessa tendência tem a ver com influências utópicas e não demonstradas de uma geração que ainda busca compreender suas necessidades, algo como um desejo mal explicado de encontrar um trabalho que o complete, o realize, como algo que ainda não conseguiu concretizar no seio familiar ou nas relações sociais, mas há sim uma parte dessa tendência de adoecimento motivada pelo mercado de trabalho que precisa encontrar um caminho que não se limite a resultados e metas, mas que consiga associar esses interesses seculares do empreendedor, com a satisfação pessoal daquele que faz a coisa acontecer nas organizações e que agora está pedindo passagem para que suas necessidades passem a ser um ingrediente indispensável nessa receita de sucesso do mundo corporativo. [1]

[1] Parte deste texto foi escrito com ajuda da Inteligência Artificial (Gemini), e o foi com o propósito de estimular a inserção dessa ferramenta no processo de solução desse complexo cenário da saúde ocupacional que frequentemente tem sido a ela atribuída parte da responsabilidade. Afinal, como ouvi de um querido a saudoso amigo, gestor de RH de primeira grandeza, Carlos Alberto Reani: “quem faz parte do problema, tem que fazer parte da solução”.

 

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